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29/06/2006 | GRUPO EC - ESTUDOS DE CASOS
Serviços gratuitos: Uma ilusão e ameaça ao transporte público
Por: Mohamed Mezghani

Aparentemente sim, já que algumas cidades optaram por transporte público gratuito, e continuam com eles. Em Hasselt, Bélgica, um estudo conduzido quatro anos após a introdução do transporte público gratuito mostrou que o número de viagens de ônibus aumentou sete vezes enquanto que a oferta apenas triplicou. A operadora DeLjin teve uma mudança de 23%. Cidades francesas como Vitré, Châteauroux, Figeac ou mais recentemente, Gap também estão provendo serviços de transporte público gratuito. Entretanto, enquanto que o número de apoiadores do transporte público gratuito esteja aumentando, nenhum estudo foi conduzido de forma a analisar profundamente seu impacto, especialmente a razão custo/benefício, na comunidade. Embora alguns benefícios tenham sido esclarecidos como a preservação da atratividade do centro da cidade ao se facilitar seu acesso via transporte público, desenvolvendo a lealdade dos consumidores jovens para que eles mantenham esse costume mesmo quando puderem dirigir, cortando custos relacionados à venda, gerenciamento e inspeção de tíquetes, etc: eles não são os preservadores do transporte público gratuito; estes são os objetivos do transporte público em geral. Obviamente é possível alcançar estes mesmos objetivos pedindo aos passageiros que paguem e adotando uma política voluntária para transporte público enquanto se evita efeitos secundários ou perversos do transporte gratuito.

 

O primeiro destes efeitos é o desperdício. È da natureza humana consumir a mais o que não se paga. Consequentemente, uma abundância de transporte público gratuito pode resultar em gangues usando o ônibus como um substituto das escadas de seus prédios, com todos os inconvenientes que isto pode causar aos outros passageiros. Então qual seria o impacto, em termos de imagem projetada, do transporte público gratuito? Sem dúvida negativo. Se é difícil o suficiente para o transporte público ser considerado positivamente quando é pago, seria ainda mais complicado se esses serviços fossem isentos de taxas. Qual valor o transporte público teria nos olhos dos cidadãos quando não se paga para usá-lo? E como se estrutura a divulgação de um serviço isento de taxas?

 

Embora economias consideráveis possam ser feitas relacionadas à cobrança e gerenciamento das tarifas, estaria fora de questão eliminar as inspeções, pois mesmo que, inicialmente eles tenham sido desenhados para combater fraudes, controles são também uma boa oportunidade para garantir segurança nas redes de transporte público.

 

A lista de discussões contra o transporte público gratuito é longa, porém devíamos perguntar “Estarão os cidadãos realmente necessitando por esse tipo de sistema ou ele é apenas um sonho dos políticos na sua procura por suporte eleitoral?” Pesquisas podem esclarecer esta situação: quando perguntados sobre o por quê de não usarem transporte público, os cidadãos não mencionaram o preço como principal fator. Além disso, estudos sobre a elasticidade-preço da demanda também mostram que a correlação é muito frágil. Além do mais, por que dar de graça a aqueles que estão dispostos a pagar? O que os cidadãos querem são serviços de transporte que são amigáveis ao usuário, confortáveis, confiáveis e seguros. Em relação ao preço, uma estrutura de tarifas facilmente entendível deve ser usada de forma que permita que o cidadão escolha utilizar o transporte público sempre que quiser ou precisar, mas que use seu carro ou outro modo de transporte em outras ocasiões. De maneira simplista, planejado de forma a atrair pessoas não cativadas. Não se deve forçar todos os passageiros a passes mensais ou semanais, mas focar em vender viagens simples as quais eles podem usar como quiser enquanto aproveitam os benefícios de preço de um passe ou tíquete de temporada. (José Viegas chama esse ato de determinar tarifas para promover “mudança modal”). Bilhetagem inteligente possui a tecnologia para desenhar tal produto; depende agora das autoridades organizadoras defini-la. Retornando ao transporte público gratuito, este serviço deve, obviamente, continuar a existir para algumas categorias de usuários e neste caso, subsídios devem ser pagos diretamente a eles e operadoras não devem ser usadas como intermediários sociais. Novamente, bilhetagem eletrônica pode ser útil.

 

Genebra tem o custo de financiamento do transporte público gratuito em 100 milhões de euros por ano. Não seria melhor aplicar esse dinheiro na melhoria da qualidade e aumento da oferta? E finalmente, não seria o transporte público gratuito um pretexto para parar com o desenvolvimento e promoção do transporte público? Pois a partir do momento em que o transporte for gratuito, ninguém vai, por exemplo, ousar regular o tráfego de carros, construir faixas para ônibus ou dar preferência a ônibus em semáforos. Quem irá buscar investimento para melhorar a qualidade e produtividade interna e externa?

 

Condições de operação irão se deteriorar e como o sistema não gera nenhuma receita, irá depender totalmente de financiamento público, que está diminuindo. Isto levará inevitavelmente ao colapso do sistema. Que, por sua vez irá gerar privatizações no estilo britânico e ocorrerá a mudança de um serviço gratuito para um onde não existe controle sobre o nível das tarifas, com todas as conseqüências relacionadas à exclusão que isto pode trazer. A estabilidade e continuidade do sistema de transporte público dependem em achar um ponto comum entre as várias fontes de financiamento: receita das tarifas, compensação pelo dever do serviço público e outras fontes comerciais. Alterar este equilíbrio significa ter grandes riscos em relação à sobrevivência do sistema, que prega a mobilidade para todos. E, por mais paradoxal que pareça, transporte gratuito não irá, no fim das contas, levar mobilidade a todos.

 

“Public Transport International”, revista da UITP
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